Outro Exemplo de Idealismo: Robert Guthrie

A epígrafe do post Pirimetamina de 16/02/2020 cita um dito de Albert Sabin (1906-1993) que mostra o idealismo que moveu muitos dos pesquisadores de áreas da Saúde:

“Não queria que minha contribuição ao bem-estar da humanidade fosse paga com dinheiro. Meu ordenado de professor me basta. (…)”

Como mencionado no post Ampliação do Programa Nacional de Triagem Neonatal (Teste do Pezinho) de 01/06/2021, o microbiologista americano Robert Guthrie (1916-1995) iniciou, em meados da década de 50, pesquisas com um teste de inibição bacteriana para triagem de portadores de fenilcetonúria com sangue coletado em papel-filtro. Esse teste se mostrou bem mais sensível que o teste urinário previamente utilizado de reação com cloreto férrico e de mais simples realização.

Na verdade a motivação de Guthrie teria mais relação com aquela de Augusto (1933-2013) e Michaela Odone (1939-2000) — vide post Óleo de Lorenzo de 16/10/2020 — que com a de Sabin, seu filho (John Guthrie) apresentava uma deficiência intelectual de causa não especificada e uma sobrinha (Margaret Doll) fora diagnosticada tardiamente com fenilcetonúria. Robert Guthrie fazia parte de um grupo de pais (a NARC) e estava determinado a encontrar uma maneira de diagnosticar doenças através da triagem neonatal cujas sequelas fossem preveníveis através de um tratamento precoce.

Para a produção comercial dos kits de teste, a Ames Company (uma divisão da Miles Laboratories) solicitou que fosse registrada patente, o que Robert Guthrie fez em 1962. Ele então assinou um contrato com a companhia de licenciamento exclusivo onde ele não receberia quaisquer royalties mas 5% dos ganhos seriam divididos entre a NARC Research Fund, a Association for Aid of Crippled Children e a University of Buffalo Foundation (afiliada à Buffalo Children’s Hospital, empregadora de Robert Guthrie). Posteriormente ele descobriu que a Ames Company iria cobrar um valor muito mais elevado ($262 por kit de teste) que o esperado, apesar de grande parte do custeio das pesquisas e do desenvolvimento ter utilizado verbas federais através do USCB e do PHS.

O episódio logo se tornaria uma disputa política e econômica e marcaria o que alguns chamariam de fim da “era da inocência”:

The episode was painful for Guthrie, who realized he’d seriously erred in signing the licensing agreement. With politics well to the left on the American political spectrum, Guthrie shared Long’s [Russell B. Long, senador e diretor da Monopoly Subcommittee of the Select Committee on Small Business] view that government should play a larger role in promoting public health; his belief in government’s power to do good was integral to his commitment to universal screening. Distrustful of commercial interests in screening, he never intended to earn anything from the test for himself.

In May 1965, Geoffrey Edsall of the National Institutes of Health (NIH) testified in the Senate hearings that the “granting of such exclusive rights for a device developed with the support of an NIH research grant would be contrary to the spirit — if not the letter — of the unwritten rules that govern the use of such public money.” He assumed that this view would be “shared by the majority of scientists, health workers, and educators” and “that most lay persons would take the same position as regards public policy and the public interest.”

In reality, there was no consensus in the 1960s on the ethics of privately profiting from research conducted with public funds, and throughout the 20th century, patenting was not uncommon in industry–university collaborations, especially for pharmaceuticals and chemical compounds. Nevertheless, norms governing what should count as a freely available public good have fundamentally changed since 1965.

(PAUL and ANKENY, 2013.)

No final das contas, apesar de a posição do senador Birch Bayh na Monopoly Subcommittee em favor da Ames Company não ter prevalecido, eventualmente ele e o senador Robert Dole em 1980 conseguiram fazer aprovar uma legislação (a Bayh-Dole Act) que passou a permitir que universidades e empresas mantivessem direitos sobre resultados de pesquisas que tivessem utilizado verbas federais, sem necessidade de autorizações especiais.

Concluindo:

Aggressive commercialization of university research has since become the norm, with universities embracing patenting as an efficient way to transform knowledge into products, generate new income sources, recoup product- development costs, and motivate scientists. This shift in attitudes toward commercialization in biomedicine would probably have been as distasteful to Guthrie as to Long. The story of the Guthrie test reminds us that many clinicians and researchers still find that this “new normal” conflicts with their responsibilities to patients and society, particularly in relation to publicly funded research. The story also underscores how industrial partnerships can go wrong, given the often diverse and conflicting goals of participants. The key principles debated in the Guthrie case underlie the conflicts that remain to this day between political and economic imperatives to commercialize research and the social and moral imperatives to promote public health.

(IDEM, 2013.)

Bibliografia:

Civita, V. (ed.) Albert Sabin. In: Medicina e Saúde: História da Medicina Vol. II. Abril Cultural, 1970. p. 594.
Paul, Diane B.; Ankeny, Rachel A. Patenting the PKU Test — Federally Funded Research and Intellectual Property. N Engl J Med. 2013;369:792-4.
Robert Guthrie Legacy Project. Acessado em junho de 2021.

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