“What’s in a name?”

“… What’s in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.”

(SHAKESPEARE. In: Romeo and Juliet.)

O post “Neurastenia”, ou shénjīng shuāiruò [神經衰弱] (18/08/2021) mencionou de passagem a “ascensão e queda” do diagnóstico da neurastenia na prática médica ocidental da segunda metade do século XIX até meados da década de 40 do século XX. Diagnósticos médicos, seja no Ocidente ou na Ásia do Leste, são rótulos aplicadas a diferentes condições de saúde com várias implicações implícitas:

  • Perspectivas a curto, médio e longo prazos
    (história natural, prognóstico)
  • A existência (ou não) de tratamentos
  • Atuação sobre a(s) etiologia(s), se conhecida(s)

Como diz WILLIAMS, 1994, no capítulo O Princípio da Iúca a respeito do poder da nomeação:

… Quando me conscientizei da existência da árvore, quando pude classificá-la, passei a vê-la em todos os lugares. Esse é o x da questão; é onde eu queria chegar: o fato de podermos dar nome a algo significa que estamos conscientes deste algo… temos poder sobre ele… nós o possuímos e estamos no comando.

Mas quando o nome em questão encontra-se definido de maneira imprecisa, esse poder encontra-se bastante limitado. Esta não é de maneira alguma uma preocupação recente ou exclusivamente ocidental; com efeito, uma das ideias centrais de Kǒng Fūzǐ [孔夫子] (551–479 AEC) — mais conhecido no Ocidente como Confúcio — é a retificação dos nomes (zhèngmíng [正名]):

If names are incorrect, speech cannot be smooth. If speech is not smooth, affairs cannot be accomplished.

Quem já teve que se ver com a definição de neurastenia percebe claramente o quanto ela é imprecisa e incapaz de delimitar história natural ou prognóstico. No código F48.0 da CID‑10 encontra-se o seguinte:

Existem variações culturais consideráveis para a apresentação deste transtorno, sendo que dois tipos principais ocorrem, com considerável superposição. No primeiro tipo, a característica essencial é a de uma queixa relacionada com a existência de uma maior fatigabilidade que ocorre após esforços mentais freqüentemente associada a uma certa diminuição do desempenho profissional e da capacidade de fazer face às tarefas cotidianas. A fatigabilidade mental é descrita tipicamente como uma intrusão desagradável de associações ou de lembranças que distraem, dificuldade de concentração e pensamento geralmente ineficiente. No segundo tipo, a ênfase se dá mais em sensações de fraqueza corporal ou física e um sentimento de esgotamento após esforços mínimos, acompanhados de um sentimento de dores musculares e incapacidade para relaxar. Em ambos os tipos há habitualmente vários outras sensações físicas desagradáveis, tais como vertigens, cefaléias tensionais e uma impressão de instabilidade global. São comuns, além disto, inquietudes com relação a uma degradação da saúde mental e física, irritabilidade, anedonia, depressão e ansiedade menores e variáveis. O sono freqüentemente está perturbado nas suas fases inicial e média mas a hipersonia pode também ser proeminente.

(Definição do termo na CID‑10.)

Parafraseando a epígrafe, é importante o nome “rosa” designar apenas “rosas” (e não, por exemplo, agrupar magnólias, pinheiros e musgos por terem os três folhas verdes); por outro lado, entre plantadores especializados em rosas, pode ser interessante distinguir entre os vários tipos (em arbustos, trepadeiras, espécimes silvestres, etc.) desde que as diferenças sejam relevantes e impliquem numa mudança no manejo.

Diversamente a este pensamento de tudo sistematizar e deixar explícito, o pensamento chinês (e, por extensão, o da Ásia do Leste) na MTC é bem distinto. Os conceitos devem sugerir mais que definir, possibilitando uma maior flexibilidade e ampliação dos significados. Pois Confúcio disse também:

I do not enlighten those who are not eager to learn, nor do I inspire those who are not anxious to find a way of expression. To those who have been presented one corner [of the square] but do not from it figure out the other three, I do not repeat my lesson.

Bibliografia:

Kaptchuk, Ted. The Web That Has No Weaver. McGraw-Hill, 2000.
Lin, T.Y. Neurasthenia revisited: its place in modern psychiatry. Culture, Medicine and Psychiatry. 1989;13(2):105–29.
Ni, P. Understanding the Analects of Confucius: a New Translation of Lunyu with Annotations. (trad.) New York: State University of New York, 2017.
Williams, R. Design para quem não é designer: noções básicas de planejamento visual. (trad.) São Paulo: Callis, 1995.
Medical Diagnosis. Wikipedia. Acessado em agosto de 2021.
Romeo and Juliet | Act 2, scene 2. Folger Shakespeare Library. Acessado em agosto de 2021.

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