Alguns Pensamentos Críticos Sobre a Tradição

As doutrinas tradicionais que se desenvolveram desde os tempos do Imperador Amarelo (Huángdì) e do Divino Agricultor (Shénnóng) passaram por aperfeiçoamentos diversos mas ainda constituem as bases teóricas estudadas até os dias de hoje. Mesmo a MTC, engendrada sob os auspícios do materialismo histórico e do socialismo científico, não refutou abertamente os alicerces antigos — ainda se ensina sobre Yin e Yang, Qi, Zang Fu e Meridianos.

Mas outras ideias menos adaptáveis às novas estruturas de pensamento — ou menos eficazes — acabaram deixadas de lado. E teorias consideradas excessiva e desnecessariamente complexas passaram por um processo de simplificação e padronização (como se vê nas citações abaixo do compêndio de estudos da Shanghai College of Traditional Medicine).

O autor Wang Ji [médico do período Ming] acreditava que era desnecessário obedecer estritamente às regras descritas em textos antigos, que estipulavam quantos décimos de um cun uma agulha deveria ser inserida em determinado ponto, ou por quantas respirações do paciente a agulha deveria ficar retida, ou quantos cones de moxa deveriam ser queimados em um determinado ponto de Acupuntura. Wang Ji argumentava que estes fatores deveriam ser determinados pelas circunstâncias específicas de cada caso; a profundidade de inserção deveria estar de acordo com a profundidade da doença; a duração da inserção deveria estar de acordo com o tempo que se levaria para obter o Qi; e o número de cones de moxa a ser queimado variaria de acordo com a gravidade da doença e com a massa muscular da região. Estas concepções de Wang Ji ainda são aplicadas na prática clínica moderna.

(SHANGHAI COLLEGE OF TRADITIONAL MEDICINE, 1996.)

E:

O autor Wang Ji criticava o aumento muito rápido de métodos de inserção (tais como os 14 métodos do Ode da Agulha Dourada [Jīn Zhēn Fù]) que considerava como algo inócuo e desnecessário, sustentando que os métodos descritos no Nan Jing eram suficientes tanto para fortalecer como para dispersar. Era admirável a atitude prática e o ceticismo de Wang Ji em relação a fatos inúteis.

(Idem.)

Quem quiser pode ainda “ir atrás” e estudar os métodos de inserção e estimulação do Jīn Zhēn Fù. Mas não é mais algo ensinado com esse grau de minúcia, e geralmente é algo considerado como “pode ser que funcione”.

E outra citação, de Stephen J. Birch e Robert L. Felt, faz uma crítica ao “telefone sem fio” que ocorre por vezes na transmissão da tradição.

Alguns autores de língua inglesa sugerem que os vasos extraordinários armazenam e difundem o Jing (Essência) e o Yuan Qi (Qi Original), ou ambos. (…)

… A literatura tradicional que se refere aos vasos extraordinários é bem diferente e muitas vezes contraditória. Isso mostra provavelmente que essas teorias e suas aplicações clínicas se desenvolveram depois das teorias dos canais regulares, os Jing Mai. No entanto, mesmo dentro dessa considerável variedade, não há fontes de informações originais que sustentam essa descrição, nem há uma literatura óbvia de contraindicações e de tratamentos restauradores para o dano iatrogênico que essa ideia implica.

Revisando algumas passagens sobre vasos extraordinários nos principais textos sobre o assunto, Huang Di Nei Jing Su Wen, Huang Di Nei Jing Ling Shu, Nan Jing, Shi Si Jing Fa Hui, Zhen Jiu Da Quan, Zhen Jiu Ju Ying, Zhen Jiu Da Cheng e Qi Jing Ba Mai Kao, não se encontra nenhuma menção explícita de qualquer associação entre os vasos extraordinários e Jing Qi ou Yuan Qi. (…)

Resumindo, um conceito que na melhor das hipóteses é uma variação européia ou asiática acabou por representar toda uma tradição porque há pouquíssimas salvaguardas no processo de formação que protejam a transmissão dessa tradição.

(BIRCH e FELT, 2002.)

Pode se criticar a MTC por vários outros motivos; mas o fato de terem tomado para si a tarefa de “depurar” a medicina tradicional, torná-la menos personalista e proporcionar uma estrutura teórica coerente e ensinável sem a necessidade de “iniciações” é algo digno de nota.


Bibliografia:

Birch, Stephen J e Felt, Robert L. Entendendo a Acupuntura. São Paulo: Roca, 2002. p. 95-6.
Kaptchuk, Ted. The Web That Has No Weaver. McGraw-Hill, 2000.
Shanghai College of Traditional Medicine. Acupuntura um Texto Compreensível. São Paulo: Roca, 1996. p. 493.

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