Aprendizado e os Neuromitos

À medida em que há uma pressão cada vez maior sobre o setor da Educacão — devido à quantidade cada vez maior de conteúdos para ensinar e à necessidade de reciclagem permanente dos conhecimentos (sobretudo no ensino superior) —, naturalmente surge um interesse na ajuda que outros campos possam proporcionar para se obter melhores resultados.

Inicialmente a Psicologia e o estudo do desenvolvimento infantil (Lev Vygotsky [1896-1934], Jean Piaget [1896–1980], entre outros) forneceram os subsídios iniciais; depois vieram as pesquisas sobre a inteligência artificial e os desenvolvimentos decorrentes da interdisciplinaridade entre a Ciência da Computação e as Neurociências — culminando no trabalho com a linguagem LOGO do grupo do MIT entre as décadas de 60 e 80 do século passado.

O coordenador do grupo, Seymour Papert (1928-2016), publicou em 1980 o livro Mindstorms (LOGO – Computadores e Educação) desenvolvendo uma visão de como os computadores (e a Informática em geral) poderiam contituir um valioso auxílio na Educação.

A respeito do livro de Papert, lemos a uma certa altura no Microcomputador Curso Prático uma passagem presciente:

O livro prevê o surgimento de uma nova “cultura do computador”, na qual muitas ideias formais, anteriormente consideradas acima da capacidade das crianças, serão por elas dominadas com facilidade, devido à maneira pela qual elas usam o computador. Essa exploração de ideias — ativa e cooperativa (numa relação aluno-aluno e aluno-professor) — constitui a filosofia LOGO, na qual se fundamenta o uso dessa linguagem na educação.

A partir dos progressos da Informática, cada vez mais:

  • o ensino ganha em acessibilidade e escalabilidade
  • o(a) docente passa a ter muito mais um papel de facilitador(a) do processo de aprendizado
  • há necessidade de um grau muito maior de feedback das partes envolvidas
  • exige-se do(a) estudante um maior grau de metacognição sobre o seu próprio aprendizado
  • o aprendizado adapta-se ao ritmo e ao desempenho do(a) estudante
  • as atividades tornam-se mais interativas e multimodais

Uma tendência recente e que tem mostrado bons resultados é o da gamificação, facilitando o processo de aprendizado e tornando-o mais estimulante — e, portanto, efetivo. Cabe notar, entretanto, que a obra Homo Ludens do historiador Johan Huizinga (1872-1945) já menciona, em 1938 (bem anteriormente, portanto, à tendência citada), o aspecto de aprendizado contido no jogo.

Paralelamente a todas as contribuições da Psicologia e da Ciência da Computação, o desenvolvimento mais acelerado das Neurociências a partir da Década do Cérebro (1990-1999) trouxe a oportunidade de melhores subsídios teóricos e recomendações.

Este potencial — ainda incipiente mas vislumbrado por muitos, nem sempre devidamente versados em Educação e Neurociências — trouxe também numerosos incorreções, que constituem os neuromitos; eles não são de maneira alguma recentes, mas sem dúvida se difundiram bem mais nas últimas décadas.

Neuromitos mais difundidos na área educacional:
Comentário
Estilos de aprendizado (“visual”, “auditivo”, “cinestésico”) Howard E. Gardner (1943- ), no livro Frames of Mind: the Theory of Multiple Intelligences (1983), propôs a teoria das “múltiplas inteligências” (linguística, lógico-matemática, musical, corporal-cinestésica, espacial, intrapessoal, interpessoal e naturalista). Essa teoria nunca foi demonstrada, e acabou servindo como base para os “estilos de aprendizado”.
Mesmo refutado repetidas vezes, este neuromito é um dos mais persistentes na área educacional, sendo adotado em várias publicações e cursos de formação pedagógicos. Não há evidências mostrando que adaptar as técnicas de ensino ao estilo da preferência melhorem seus resultados. Inclusive privilegiar um modo em detrimento de outros acaba diminuindo a eficácia do aprendizado.
Existem períodos críticos do desenvolvimento cerebral
e
Escutar música clássica melhora o desenvolvimento infantil
A crença de que existam marcos fixos e imutáveis no desenvolvimento infantil é causa de ansiedade em muitos pais, que temem proporcionar estímulo insuficiente para o desenvolvimento intelectual das crianças. E lucro para empresas que vendem produtos para estimular este desenvolvimento.
Um experimento de 2002 de Marian Diamond (1926-2017) mostrou uma correlação entre a complexidade e a estimulação do ambiente e a quantidade de neurônios e sinapses em cérebros de ratos. Isso, e a ocorrência de um pico exponencial na criação de sinapses (sinaptogênese) entre o 2o e o 10o meses de vida fizeram muitos chegarem à conclusão (não baseada em evidências diretas) da necessidade de estimular o desenvolvimento infantil — via brinquedos especiais, exercícios ou música clássica.
E, se o período da infância apresenta uma maior facilidade de certos aprendizados (vide “Há maior facilidade de certos aprendizados no período da infância”), não se descreveu nada comparável aos “períodos críticos de desenvolvimento” dos estudos da década de 70 de Konrad Z. Lorenz (1903-1989) — neles observou-se que filhotes de aves ligam-se de modo permanente ao primeiro elemento móvel que eles veem ao eclodir dos ovos (no que Lorenz chamou de “imprinting”).
O desenvolvimento do cérebro termina na adolescência Na verdade o desenvolvimento cerebral continua ao longo da infância e da adolescência, o funcionamento adequado do lobo pré-frontal (região importante para funções de planejamento e tomada de decisões) ocorrendo a partir da 2a década de vida. E, mesmo após, os mecanismos de sinaptogênese e poda sináptica envolvidos na plasticidade neuronal (e, consequentemente, no processo de aprendizado) continuam ativos ao longo da vida.
O aprendizado gera novos neurônios O aprendizado decorre do estabelecimento e consolidação de novas sinapses entre neurônios.
A capacidade mental é inata e imutável As habilidades intelectuais dependem tanto de fatores genéticos quanto também ambientais. E elas podem se modificar ao longo da vida.
Um sinal comum de dislexia é “ver” as letras ao contrário As características centrais da dislexia compreendem prejuízos variados na capacidade de leitura/escrita (principalmente na correlação entre letras e fonemas, na percepção global das palavras a partir de seus componentes [letras/fonemas] isolados, na fluência). Pode haver omissões ou inversões de letras/fonemas, ou trocas/confusões de letras graficamente semelhantes.
Cabe notar que estas dificuldades não são auditivas ou visuais — ou seja, o(a) disléxico(a) não escuta ou enxerga “invertido” — senão de processamento central.
Só se deve ensinar outras línguas depois que as crianças tiverem aprendido bem a língua nativa Frequentemente se imagina que o ensino de uma língua “atrapalha” o da outra ou que ambas competem por espaço dentro do cérebro. Ao invés de regiões rigidamente definidas, o funcionamento cerebral se assemelha mais a uma rede com “hubs” (alguns destes realizando conexões essenciais) — com algumas redes se superpondo a outras, porém funcionando harmonicamente.
O consumo de açúcar/corantes causa déficit de atenção O transtorno de déficit de atenção, como muitos dos transtornos de aprendizado ou de desenvolvimento, apresenta causas multifatoriais. Por mais que seja tentador procurar causas simplistas, elas raramente contribuem para uma melhor compreensão e solução dos problemas.
Outros neuromitos mais conhecidos do público geral:
Comentário
Cérebro “direito” vs. cérebro “esquerdo” Na verdade a maior parte das atividades acaba envolvendo ativação de várias redes neuronais tanto do “lado esquerdo” quanto do “lado direito”. Aparentemente o conceito surgiu de uma má interpretação dos conceitos de localização das funções cerebrais (p.ex. linguagem) e dos trabalhos de Roger W. Sperry (1913-1994) com pacientes que tiveram os hemisférios cerebrais desconectados cirurgicamente, para tratamento de epilepsia.
Um exemplo de literatura de “autoajuda” que acabou surgindo sobre essa dicotomia foi o Desenhando com o Lado Direito do Cérebro (1979) de Betty Edwards (1926- ), que supostamente visa desenvolver o “lado criativo” situado no hemisfério cerebral direito.
O ser humano utiliza apenas 10% do cérebro Os estudos da década de 50 do neurocirurgião Wilder G. Penfield (1891-1976) com estímulos elétricos sobre o córtex mostravam áreas sem reação aparente (chamadas na época de “áreas silenciosas”) — normalmente áreas de associação, com funções mais “abstratas” porém não menos importantes e cujo funcionamento foi melhor compreendido com um melhor entendimento das redes neuronais.
Além disso, mesmo considerando a plasticidade neuronal, a seleção natural não permitiria a manutenção de um órgão “dispendioso” como o encéfalo que fosse em grande parte “inútil” — ele consome aproximadamente 20% do suprimento sanguíneo de oxigênio e glicose mesmo representando cerca de 2% do peso total do corpo.
O cérebro “desliga” durante o sono O padrão de atividade do encéfalo muda durante o sono, os traçados de montagens de eletroencefalograma identificando suas várias fases. Em nenhum momento o encéfalo “desliga” (exceto em situações especiais — como anestesia geral, coma ou morte encefálica).
Jogos de treinamento cerebral Muitas empresas ultimamente têm comercializado jogos para “treinamento do cérebro” no rastro do interesse pelo assunto. Percebeu-se, no entanto, que as pessoas raramente conseguem transferir as habilidades aprendidas em contextos fora dos apresentados nos jogos.
Ou seja: o repertório cognitivo contido nesses jogos é restrito e é certamente insuficiente se propostos de uma maneira isolada.
Multitarefa A “enxurrada” de informações e atividades a que nos habituamos em tempos de internet nos faz achar que seja possível realizar várias atividades ao mesmo tempo (i.e. “multitarefa”).
Na verdade este estado de atenção dividida forma memórias (e, principalmente, aprendizados) de quantidade e qualidade inferiores, pouco integrados e pouco entendidos.
Mulheres são melhores que os homens para multitarefa Muitas mulheres gostam de acreditar nessa suposta “superioridade” feminina, mas este neuromito não é mais verdadeiro para as mulheres que para os homens; ele, além disso, acaba reforçando comportamentos que levam a sobrecarga crônica e subsequente burnout.
Aprender dormindo É fato que o sono auxilia na consolidação das memórias formadas durante o dia (principalmente daquelas que precedem o período dele) — daí a recomendação de nunca passar a noite em claro para estudar. Mas a promessa de muitos produtos comerciais de “parar de fumar, perder peso, etc.” ou aprender línguas escutando mensagens durante o sono é, no mínimo, discutível.

Algumas causas para o surgimento e continuidade dos neuromitos:

  • distorção de fatos científicos
  • distorção na interpretação de resultados experimentais
  • vieses de pensamento
  • conflitos de interesse
Estes não são neuromitos — porém certas interpretações errôneas de algumas destas afirmativas geraram neuromitos:
Comentário
Homens têm cérebros maiores que o de mulheres Dados válidos em médias populacionais, e não está clara a implicação desses achados. Mesmo assim eles acabaram, no século XIX (vide comentários de Charles R. Darwin [1809-1882] e pesquisas de [Pierre] Paul Broca [1824-1880] e de [Charles-Marie] Gustave Le Bon [1841-1931]), validando mitos da inferioridade feminina para atividades intelectuais.
O cérebro em homens e em mulheres se desenvolvem em ritmos diferentes Existem, sem dúvida, diferenças no desenvolvimento; mas determinar o quanto tais diferenças permitem se falar num “cérebro masculino” e num “cérebro feminino” e no quanto elas implicam em distintas maneiras de aprender é algo ainda por determinar. E, muito mais que a presença ou ausência de certas habilidades no “cérebro masculino” ou no “cérebro feminino”, existem diferentes graus de proficiência na média populacional.
Há consideráveis variações individuais que não permitem generalizações fáceis, como aquelas “extraídas” de The Essential Difference: Men, Women and the Extreme Male Brain (2003) de Simon Baron-Cohen (1958- ).
Há maior facilidade de certos aprendizados no período da infância Embora seja fato que certos aprendizados (como, por exemplo, a aquisição intuitiva de muitas das habilidades linguísticas ou a educação musical) ocorram melhor e mais rapidamente na infância, a capacidade para outros aprendizados não se limita somente a esse período e se mantém ao longo da vida.
Exercícios para a memória Cabe notar que a função da memória não é um bloco unitário, dependendo de vários domínios cognitivos — como a atenção — e compondo-se de diversos componentes com distintos processos envolvendo a codificação e a lembrança da informação e que interagem dinamicamente entre si.
Mas é questionável a eficiência de uma educação que somente exercite a memória em tempos onde a informação encontra-se constantemente em mudança e onde cada vez mais se torna necessário “aprender a aprender”.
Mudanças do ritmo circadiano na adolescência dificultam o despertar no período da manhã (Verdadeiro. A maioria dos sistemas educacionais, no entanto, têm sido lentos em se adaptar mesmo reconhecendo há tempos este fato.)
Deixar de se alimentar de manhã pode prejudicar o desempenho acadêmico (Verdadeiro. Estas são observações particularmente importantes quando a preocupação com processos seletivos faz com que alguns/algumas estudantes descuidem desses cuidados com a própria saúde.)
Atividade física melhora o funcionamento mental


Bibliografia:

Busch, Bradley. Four neuromyths that are still prevalent in schools – debunked. The Guardian. 24/02/2016. Acessado em outubro de 2020.
Macdonald, Kelly; Germine, Laura; Anderson, Alida; Christodoulou, Joanna; McGrath, Lauren M. Dispelling the Myth: Training in Education or Neuroscience Decreases but Does Not Eliminate Beliefs in Neuromyths. Frontiers in Psychology. 2017;8(1314). Acessado em outubro de 2020.
Moran, Thomas. Neuromyths: The 10 Top Misconceptions about your Brain. The Startup. 05/02/2019. Acessado em outubro de 2020.
Navarro, Jesse (ed.) Microcomputador Curso Prático Vol. 1. Rio Gráfica, 1985. p. 22-5, 30-3, 297-9.
Newton, Phil. What are Learning Styles?. Psychology Today. 20/04/2015. Acessado em agosto de 2020.
Dispelling “Neuromyths”. In: Understanding the Brain: The Birth of a Learning Science. OECD, 2007. p. 107-26.
Four ways neuroscience and technology accelerate student learning. Pearson Australia. Acessado em setembro de 2020.

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