Um Capítulo Que Quase Poderia Ser Chamado de Hipocrático

Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τέχνη μακρή, ὁ δὲ καιρὸς ὀξύς, ἡ δὲ πεῖρα σφαλερή, ἡ δὲ κρίσις χαλεπή.
[A vida é breve; a arte, longa; a oportunidade, passageira; a experiência, enganosa; e o julgamento, difícil.]

(Hipócrates)

No post Contraponto entre a Medicina Tradicional Chinesa e a Medicina Ocidental (22/05/2020) fez-se uma comparação entre as diferentes filosofias por trás das práticas médicas de uma e de outra.

Há, entretanto, inegáveis pontos de contato motivados pela preocupação com a boa prática e com o ser humano. Vejamos, por exemplo, o Capítulo 78 (“As Quatro Razões da Falha do Tratamento” [Zheng Si Shi Lun]) do Su Wen:

Consequentemente, alguns médicos de baixo nível exageram no modo de falar, como um cavalo que galopa a uma distância de mil milhas, mas na verdade ele nem mesmo entende a palpação dos pulsos Cun e Chi; como pode ele saber da astronomia acima, da geografia abaixo e das tarefas humanas no centro, que estejam relacionadas ao tratamento? Os princípios do Yin e do Yang, as condições de concordâncias e adversidade da doença, das vísceras e dos meridianos só podem ser dominadas através da fluidez, da calma e do tempo.

Se alguém só sabe como inspecionar o pulso Cun Kou, mas não sabe como integrá-lo com as Cinco Vísceras, não será capaz de conhecer o motivo da doença. Quando ocorre um contratempo médico, ele primeiro se queixa de que não aprendeu o suficiente, e depois então se queixa da falta de ensinamentos de seu professor. Por isso, se pratica a medicina mas não sabe tratar os pacientes de acordo com os princípios médicos, só pode flanar pelo mercado e tratar as doenças de maneira inábil. Quando, por acaso, o paciente é curado, ele se gaba de sua habilidade.

Ai de mim! Quão sutil e profundo é o princípio da medicina, e quem pode entender as razões? A teoria da medicina pode ser comparada favoravelmente com o céu e a terra e se iguala ao mar profundo. Se não se compreender a importância dos princípios médicos, fica-se confuso, mesmo sendo amparado por alguém que os entenda.

O trecho do texto intitulado Lei do Corpus Hippocraticum complementa de modo notável o trecho supracitado do Su Wen:

O aprendizado da medicina é semelhante à contemplação do crescimento dos frutos na terra; nossa disposição natural é como a terra; as doutrinas dos que ensinam, como as sementes; os aprendizados desde a infância, o cair delas, no tempo devido, na terra laborada; o lugar onde se dá o aprendizado, como o alimento que vem do ar ambiente para o desenvolvimento delas; o amor ao trabalho, (como) o cuidado diário. O tempo fortifica todas essas coisas [para que sejam nutridas por completo].

[Isso é o que devemos] introduzir na arte da medicina para que, depois de termos adquirido completo conhecimento dela, durante as idas e vindas pelas cidades, sejamos considerados médicos não somente de nome mas também de fato. A inexperiência, mau tesouro e mau espólio para aqueles que a têm, em sono ou vigília (i.e. sempre), não compartilha da alegria e da tranquilidade, e alimenta a covardia e o atrevimento. Pois a covardia assinala a falta de capacidade; o atrevimento, a ausência da arte. São duas coisas (distintas), portanto, a ciência e a opinião: uma produz saber, e a outra, ignorância.

Bibliografia:

Bing, Wang. Princípios de medicina interna do Imperador Amarelo. São Paulo, Ícone, 2001. p. 484.
Cairus, Henrique F.; Ribeiro Jr, Wilson A. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença. Rio de Janeiro, Fiocruz, 2005. p. 170.

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