Usos Históricos do Mercúrio (Hg) na China

Muitas diferentes tradições de Medicina e de Alquimia já fizeram uso do mercúrio (Hg). Na Índia, por exemplo, desenvolveu-se desde a Antiguidade mais remota a Rasaśāstra (literalmente “ciência” [śāstra] do “mercúrio” [rasa]) e outras técnicas de preparo de diferentes metais/minerais com finalidades medicinais. Paralelamente, na China, desenvolveu-se também um saber alquímico de origem taoísta.

Tanto as tradições indiana quanto a chinesa diferiam da árabe e da européia medievais por buscarem mais a longevidade/imortalidade e menos a transformação da matéria. Antigos escritos chineses citam a “Morada dos Imortais” (conhecida também como “Ilha dos Bem Aventurados”), de onde se poderiam obter ervas para preparar o Elixir da Longa Vida (ou “Elixir da Imortalidade”, “Elixir do Retorno”, “Elixir de Ouro”, “Pílula da Imortalidade”). O Imperador Qín Shǐ Huáng (259–210 AEC) chegou a enviar uma expedição naval em busca da “planta para atingir a imortalidade” (bùsǐ zhī shù [不死之樹]), que nunca retornou — possivelmente temendo represálias pelo resultado negativo.

Outra maneira de se conseguir preparar este elixir seria através do uso do cinábrio, que apresenta simultaneamente propriedades Yáng (pela cor vermelha) e Yīn (por dele se extrair o mercúrio metálico, líquido à temperatura ambiente). Devido à extrema toxicidade do mercúrio, muitos alquimistas morreram (seja no preparo das medicações, ou no seu consumo) na esperança da imortalidade. O mesmo Imperador citado no parágrafo acima (Qín Shǐ Huáng) tornou-se insano e faleceu devido ao consumo destes elixires.

Tal prática teria atingido o auge durante a época da Dinastia Táng (618–907 EC), mas não cessou senão muito tempo depois. Na obra Compêndio de Matéria Médica [Běn Cǎo Gānɡ Mù], publicada em 1578, Lǐ Shí-Zhēn diria a esse respeito:

… [the alchemists] will never realise that the human body, which thrives on water and the cereals, is unable to sustain such heavy substances as gold and other minerals within the stomach and intestines for any length of time. How blind it is, in the pursuit of longevity, to lose one’s life instead!

E:

I am not able to tell the number of people who since the Six Dynasties period (3rd to 6th centuries) so coveted life that they took [mercury], but all that happened was that they impaired their health permanently or lost their lives. I need not bother to mention the alchemists, but I cannot bear to see these false statements made in pharmacopoeias. However, while mercury is not to be taken orally, its use as a medicine must not be ignored.

Apesar da reconhecida toxicidade dos compostos de mercúrio, o uso medicinal do cinábrio (sulfeto de mercúrio II, ou Zhū Shā [朱砂]) — e, em menor grau, do calomelano (cloreto de mercúrio I, ou Qīng Fěn [輕粉]) — tornou-se bem estabelecido (vide tabela abaixo).

Substâncias Propriedades e Usos Tradicionais
Zhū Shā Doce, Frio e Tóxico
Acalma a Mente [Shén]
Alivia o Xīn
Elimina Fogo do Gān e do Xīn
Elimina Vento Interno
Resolve Fleuma no Aquecedor Superior
Elimina Fogo Patogênico (e, por consequência, trata carbúnculos, furunculose, úlceras e dor na boca e na garganta)
Qīng Fěn Picante, Frio e Tóxico
Elimina Calor Patogênico do Exterior (manifestando-se como cancros, úlceras ou feridas crônicas não cicatrizadas)
Elimina parasitos do Exterior
Drena acúmulos patogênicos de Fluidos nos Aquecedores Médio e Superior

Ambos os compostos somente podem ser utilizados sob forma de pós ou pílulas, pois nunca devem ser aquecidos durante sua preparação. Por lesarem gravemente o Yáng do Shèn os tratamentos devem ser sempre por períodos curtos de tempo.

O Qīng Fěn aparece em apenas uma fórmula moderna (a Pomada para Preencher a Pele e a Carne [Shēng Jī Wǔ Hóng Gào]). Com o advento de diuréticos mais potentes e menos tóxicos e preferência por outras substâncias laxativas, a função de “drenar acúmulos patogênicos de Fluidos nos Aquecedores Médio e Superior” (como na Pílula do Vaso e do Veículo [Zhōu Chē Wán]) apresenta interesse pouco mais que histórico.

O Zhū Shā, entretanto, ainda pode ser encontrado revestindo pílulas (como preservativo) e participando na composição de algumas fórmulas (vide lista abaixo):

  • Pílula da Magnetita e do Cinábrio [Cí Zhū Wán]
  • Pílula da Secreção Venenosa do Sapo [Chán Sū Wán]
  • Pílula das Dez Fragrâncias para Retorno da Vida [Shí Xiānɡ Fǎn Shēng Wán]
  • Pílula de Cálculo Biliar Bovino para Purificar o Xin [Niú Huáng Qīng Xīn Wán]
  • Pílula de Cinábrio para Acalmar a Mente [Zhū Shā Ān Shén Wán]
  • Pílula Especial da Água Brilhante [Zhào Shuǐ Dān]
  • Pílula Especial da Neve Púrpura [Zǐ Xuě Dān]
  • Pílula Especial da Salvação da Vida pelo Tesouro do Âmbar [Zhēn Pò Huó Mìnɡ Dān]
  • Pílula Especial do Eixo de Jade [Yù Shū Dān]
  • Pílula Especial do Imperador Celestial para Tonificar o Xin [Tiān Wáng Bǔ Xīn Dān]
  • Pílula Especial do Tesouro Maior [Zhì Bǎo Dān]
  • Pílula Especial dos Sete Tesouros [Qī Zhēn Dān]
  • Pílula Especial para Remover Estase de Xue e Parar Sangramentos [Zhèn Líng Dān]
  • Pílula Especial para Tratar Convulsão Infantil [Xiǎo Ér Huí Chūn Dān]
  • Pílula para Acalmar o Palácio com Cálculo Biliar Bovino [Ān Gōng Niú Huáng Wán]
  • Pílula para Prender Ataques [Dìng Xián Wán]
  • Pílula Requerendo a Mudança de Roupas [Gēng Yī Wán]
  • Pílula Styrax [Sū Hé Xiāng Wán]
  • Pílula Vermelha [Chì Wán]
  • Pó de Borneolum e Bórax [Bīnɡ Pénɡ Sàn]
  • Pó de Sete Milésimos [Qī Lí Sǎn]
  • Pó para Beneficiar a Fonte [Yì Yuán Sǎn]

A declaração de 22/05/2013 da fabricante e varejista de remédios tradicionais Tóngréntáng que

o cinnabarite é um medicamento tradicional chinês com uma história de 2.000 anos (…) e, desde que os pacientes sigam as instruções do médico, é seguro seu uso

(Declaração disponível no site da Tóngréntáng em 关于同仁堂中成药中使用朱砂的说明)

suscita mais dúvidas que esclarecimentos, principalmente pelo fato de não haver “níveis seguros” de mercúrio.

A presença persistente de mercúrio, outros metais pesados e pesticidas em preparados fitoterápicos chineses, além do uso de produtos de origem animal e vegetal obtidos com poucas preocupações sanitárias ou ambientais, é ainda preocupante e não contribui para uma maior aceitabilidade da Fitoterapia Chinesa.

Nota:

Vide citação geral em Ervas Tóxicas na MTC (03/02/2020).


Bibliografia:

Botsaris, Alexandros S. et al. Fitoterapia Chinesa e Plantas Brasileiras. São Paulo: Ícone, 1995.
Chen, Song Yu; Li, Fei. Guia Clínico de Ervas e Fórmulas na Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 1996.
Li, W.H. Mercury Taints Venerable Chinese Pharmacy’s Remedies. The Epoch Times. 25/05/2013. Acessado em fevereiro de 2020.
Liu, J.; Shi J.Z.; Yu, L.M.; Goyer, R.A.; Waalkes, M.P. Mercury in traditional medicines: Is cinnabar toxicologically similar to common mercurials?. Exp Biol Med (Maywood). 2008 Jul;233(7):810–7.
Chinese alchemical elixir poisoning – Wikipedia. Acessado em maio de 2020.
Minamata Convention on Mercury. Acessado em fevereiro de 2020.
Traditional Chinese Medicine Wiki. Acessado em fevereiro de 2020.
Traditional Chinese Medicines Often Contaminated With Mercury & Arsenic. Asian Scientist. 30/03/2016. Acessado em fevereiro de 2020.

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