Histórico dos Tratamentos para Sífilis

I often tell my students that it is the only disease which they require to know thoroughly. Know syphilis in all its manifestations and relations, and all other things clinical will be added unto you.

(Sir William Osler)

Em 2017 o autor deste blog comprou um exemplar do Guia‑Formulario de Therapeutica (1941) num sebo no Centro. Parte importante do livro ocupa-se com doenças infecciosas, particularmente as várias formas clínicas da tuberculose e da sífilis.

Quanto à sífilis, ela é uma das grande imitadoras (doenças sistêmicas com sintomas não muito específicos e passíveis de ser confundidos com os de várias outras) e, por tal motivo, um adágio médico bastante repetido diz que em clínica, deve-se pensar sifiliticamente. Atribui-se o dito em questão ao prof. dr. Antônio Austragésilo (1876 – 1960), primeiro catedrático da cadeira de Neurologia da Faculdade Nacional de Medicina no Rio de Janeiro.

O mercúrio foi um dos primeiros tratamentos que demonstrou alguma eficácia, no século XV, tendo inspirado este outro adágio: uma noite com Vênus [deusa greco-romana da beleza, do amor e da luxúria] e uma vida com Mercúrio [referindo-se aos tratamentos com mercúrio]. Eram comuns interrupções do tratamento devido aos efeitos tóxicos do mercúrio (por vezes piores que a doença) ou falhas terapêuticas. E, antes do advento de exames sorológicos, nunca havia certeza de ter havido cura ou apenas uma remissão característica da história natural da doença.

Visando melhora dos resultados, se propuseram outros tratamentos:

  • Iodeto, em casos de sífilis terciária (em associação ao mercúrio)
  • Arsenicais (destacando-se o Composto 606 [Salvarsan®] e o 914 [Neosalvarsan®], ambos desenvolvidos por Paul Ehrlich [1854 – 1915])
  • Bismuto (associada ou alternadamente aos arsenicais)
  • Malarioterapia, desenvolvida por Julius Wagner‑Jauregg (1857 – 1940) para tratamento da paralisia geral progressiva (uma das formas da neurossífilis)

Fosse devido à prevalência ainda elevada, aos tratamentos apenas moderadamente eficazes (apesar de terem melhorado um tanto com os arsenicais e o bismuto) e/ou ao fato de muitos(as) pacientes terem preferido negar a doença devido a estigmas sociais, 11% das admissões hospitalares entre 1909 e 1925 no National Hospital for Nervous Diseases em Londres deveram-se à neurossífilis.

Campanhas de saúde pública, tratamentos mais satisfatórios e uma maior atenção governamental às questões do comércio sexual fariam a diferença nos índices da doença a partir do final do século XIX e início do XX. Em 1906 o bacteriologista alemão August Paul von Wassermann (1966 – 1925) desenvolveu o teste sorológico de fixação do complemento que lavaria o seu nome, e a partir daí possibilitou melhora na precisão dos diagnósticos e uma maneira de monitorar a resposta ao tratamento (excetuando situações de “cicatriz sorológica” ou de “falsos positivos”). E o American Journal of Public Health publicou um relato preliminar em 1943 (por MAHONEY, ARNOLD e HARRIS) de um novo tratamento com a penicilina.

Com a testagem populacional “em massa” e o advento de um tratamento mais simples, mais rápido e muito menos tóxico com a penicilina chegou a haver um certo otimismo quanto à possibilidade de se conseguir erradicar a sífilis. A maior liberação sexual ocorrida após a década de 60 e uma certa condescendência motivada pela simplicidade do tratamento acabaram por reverter esta tendência.

Com o advento da AIDS, percebeu-se ainda que pacientes portadores de ambas as doenças muitas vezes apresentavam uma evolução atípica da sífilis, mais acelerada e com maior índice de falhas aos tratamentos com penicilina.

No Brasil as autoridades de Saúde Pública reconheceram em 2016 que existe uma epidemia da doença (agravada devido a desabastecimento nacional da penicilina-benzatina em 2017). Conforme mostram os dados do Ministério da Saúde, o número de casos encontra-se ainda em crescimento continuado:

Tabela com as taxas de detecção entre 2015 e 2018 tabuladas do Ministério da Saúde. Até a data do artigo (abril de 2020) os dados de 2019 ainda não se encontravam disponíveis.
2015 2016 2017 2018
Sífilis adquirida
(por 100.000 habitantes)
34,1 44,5 59,1 75,8
Sífilis gestacional
(por 1.000 nascidos vivos)
10,9 13,4 17,0 21,4
Sífilis congênita
(por 1.000 nascidos vivos)
6,5 7,4 8,5 9,0

Mesmo a obrigatoriedade da notificação de casos desde 2010 não mudou o fato de ser uma doença “negligenciada”. Tem havido piora na capacidade de diagnóstico e tratamento devido a:

  • deficiências na formação dos profissionais,
  • atrasos relacionados à realização e chegada dos resultados dos exames,
  • preconceitos quanto a possibilidade de reações adversas à penicilina (importante não confundí-las com a Reação de Jarisch‑Herxheimer), e
  • reinfecções devido ao não-tratamento dos(as) parceiros(as) sexuais

Bibliografia:

Caixeta, L.; Soares, V.L.D.; Reis, G.D.; Costa, J.N.L.; Vilela, A.C.M. Neurossífilis: Uma Breve Revisão. Rev Patol Trop. 2014;43(2):121-9.
Frith, J. Syphilis – Its Early History and Treatment Until Penicillin, and the Debate on its Origins. Journal of Military and Veterans’ Health. 2012;20(4):49-58.
Herzen, V. Guia‑Formulario de Therapeutica. São Paulo, Livraria Editora Freitas Bastos, 1941.
Indicadores e Dados Básicos da Sífilis nos Municípios Brasileiros. Acessado em abril de 2020.
Revista Radis aborda a epidemia de sífilis. Acessado em janeiro de 2020.

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