Sobre uma das Tentativas de Se Provar a Eficácia da Homeopatia

“Some modern homeopathic researchers have speculated that the original molecules of the substance, prior to dilution, actually imprint or stencil themselves permanently into the original solute, spatially rearranging the molecules in some way. After many dilutions, this original stenciling survives, even though molecules of the original substance are not present. This stenciling is as yet unproven. (…)”

(MANAKA, 1995.)

O médico alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843) viria a desenvolver, a partir de 1790, um novo sistema de diagnóstico e tratamento por ele denominado de Homeopatia (a partir do grego: hómoios [ὅμοιος], ou “semelhante”; e páthos [πάθος], ou “sofrimento”) em 1807.


A Homeopatia baseia-se nos seguintes princípios:

  • Todo tratamento visa a restauração da “força vital” do organismo do(a) doente
  • A Lei dos Semelhantes
    (ou: “aquilo que pode produzir um conjunto de sintomas em um indivíduo sadio pode ser usado para tratar um[a] doente com um conjunto semelhante de sintomas”)
  • A diluição dos remédios
    reduz o potencial para causa de efeitos colaterais, ao mesmo tempo em que aumentaria a capacidade de cura
  • A sucussão dos remédios
    aumenta a potência; à diluição, quando combinada com a sucussão, chama-se dinamização ou potencialização

Apesar dos sucessos iniciais da Homeopatia (ao se compará-la com os tratamentos em voga na época, como sangrias, uso de purgantes e medicações à base de substâncias tóxicas como o mercúrio ou o arsênio), muito cedo surgiram críticas. Por exemplo, em 1842 o médico e escritor americano Oliver Wendell Holmes (1809-1894) proferiu uma palestra intitulada “A Homeopatia e Seus Desatinos” criticando sobretudo a ação das diluições extremas.

A Homeopatia continuou, com períodos de maior ou menor voga, e sempre sem uma explicação cientificamente convincente para seu mecanismo de ação. O Capítulo 2 (“The X-Signal System”) de Chasing the Dragon’s Tail: The Theory and Practice of Acupuncture in the Work of Yoshio Manaka cita a Homeopatia como um exemplo dos efeitos do sayōshi (vide post Sayōshi [作用子], de 08/03/2021).

Essa não foi, entretanto, a única especulação quanto à explicação dos efeitos da Homeopatia.

A revista Nature publicou, em junho de 1988, o trabalho Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against IgE da equipe da Unidade 200 do Inserm chefiada pelo imunologista francês Jacques Benveniste (1935-2004). A Nature enviou uma equipe para investigar o estudo e replicá-lo, acabando por mostrar que conflitos de interesse, a “imprevisibilidade” da degranulação dos mastócitos in vitro e o fato de não se ter feito estudo “duplo cego” introduziram vieses favoráveis à Homeopatia.

Por várias vezes tentou-se validar a Homeopatia também através de relatos de casos (ou de pequenas séries de casos), com metanálises ocasionais. Nenhum deles particularmente positivos do ponto de vista científico. Tais insucessos motivaram o gradual descredenciamento da homeopatia dos sistemas de saúde europeus e a exigência americana de se estampar nos rótulos que as medicações homeopáticas não têm base científica.

Nota 1:

O cético e ex-mágico James Randi (1928-2020) fez parte da equipe que investigou o caso do estudo de 1988 da Inserm. Ele fundou a JREF, que ofereceu um prêmio em dinheiro entre 1964 e 2015 para quem comprovasse cientificamente a existência de fenômeno paranormais. Ao longo desse período o valor do prêmio aumentou várias vezes, chegando a US$ 1.000.000,00 a partir de 1996.

Ao longo de todo esse tempo o prêmio nunca foi concedido. Até que, após milhares de candidatos(as) ao prêmio que sequer passaram da avaliação preliminar:

Over the years, we have spent a great deal of time dealing with claims ranging from yet another dowsing claim to some VERY eccentric and untestable claims. The overwhelming majority refused to fill out the application or even state a claim that can be tested. Some of them show up in person and demand to be tested while they wait. We can no longer justify the resources to interact with these people.

Effective immediately, JREF will no longer accept applications directly from people claiming to have a paranormal power. Previously available Application Forms shall not be used and will be rejected without any review of the contents. We anticipate providing minimum required protocols for the preliminary test early next year. No one should make any effort to pursue the Challenge until those minimum required protocols are issued. The only exception is that any established psychic may contact JREF via email to be tested directly (preferably with an independent, third party TV crew.)

(Mensagem de 01/09/2015 do site da JREF.)

Nota 2:

CENTÉSIMO POST do blog.


Bibliografia:

Manaka, Y; Itaya, K; and Birch, S. Chasing the Dragon’s Tail: The Theory and Practice of Acupuncture in the Work of Yoshio Manaka. Brookline, Massachusetts: Paradigm Publishers, 1995. p. 21.
Pasternak, Natália; Orsi, Carlos. Brasil desperdiça recursos com terapias alternativas. Jornal da USP. 28/11/2019. Acessado em março de 2021.
Singh, S; Ernst, E. Truque ou tratamento: verdades e mentiras sobre a medicina alternativa. Rio de Janeiro: Record, 2013. p. 115-74.
JREF Status. James Randi Educational Foundation. 01/09/2015. Acessado em março de 2021.

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