“Humanização”: uma Palavra na Moda

Medicine is not only a science; it is also an art.

(Paracelsus [1493-1541] — pseudônimo do médico e alquimista Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim.)

Até meados da segunda metade do século XX o aparato e o conhecimento técnicos existentes atualmente na Medicina estavam ainda por desenvolver e, muitas vezes, empirismos e crenças quase supersticiosas embasavam as práticas e os modelos explicativos para os fenômenos biológicos. A partir desta época, com o aumento do ritmo de desenvolvimento técnico e de descobertas científicas, consolidou-se um paradigma mais objetivo e racional.

A descoberta dos micro-organismos patogênicos e o sucesso inicial das tecnologias de tratamento e controle de doenças infecciosas representaram inegável fortalecimento da medicina organicista. As doenças mais prevalentes na época, de natureza infectocontagiosa, favoreceram a hegemonia de tal corrente ou explicação interpretativa. Gradualmente, estudos epidemiológicos em populações específicas ganharam espaço nos laboratórios de bacteriologia – investigações sobre as doenças infecciosas de maior prevalência e virulência.

(FARIA et al, 2021.)

Mais adiante o artigo descreve o início da Medicina Baseada em Evidências (MBE) com o trabalho de Archibald Leman Cochrane (1909-1988):

Em 1948, Cochrane entrou para a Unidade Médica do Conselho de Pesquisa sobre Pneumoconiose na Cardiff University School of Medicine. Lá iniciou uma série de estudos pioneiros no uso de ensaios clínicos randomizados, entre os quais cabe destacar, naquele mesmo ano, o ensaio administrado pelo Medical Research Council (MRC), denominado “Tuberculosis Unit”. No começo do século XX, a tuberculose era um dos maiores problemas de saúde do Reino Unido. Em 1901, criou-se a The Royal Commission Appointed to Inquire into the Relations of Human and Animal Tuberculosis, que se tornou, em 1919, um conselho independente, o MRC. A equipe escolhida pelo MRC, para o ensaio de 1948, contava com: Marc Daniels, que nos quatro anos anteriores havia coordenado investigações sobre a tuberculose; Philip D’Arcy Hart, responsável pelo primeiro ensaio clínico controlado sob a tutela do MRC; e Austin Bradford Hill, responsável pelo estabelecimento de vários princípios para um ensaio clínico cientificamente aceitável. Integrava também a equipe John Crofton, convidado como pesquisador em tempo parcial no MRC.

(Idem.)

E o texto cita também a definição de David Lawrence Sackett (1934-2015) para a MBE:

uso “consciencioso, explícito e judicioso” da melhor evidência disponível na tomada de decisão sobre o cuidado com os pacientes, acrescida da experiência do médico e das preferências do paciente

Apesar das repetidas advertências quanto a uma aplicação mecanizada e acrítica das orientações da MBE, essa é uma tendência reforçada em nossos dias por diretrizes administrativas e pela dificuldade cada vez maior de se manter um nível de expertise profissional, devido ao crescimento da quantidade de informação científica.

E, muito cedo, surgiram críticas à desumanização da Medicina, como se lê nestes editoriais do JAMA:

… In spite of the better education offered today the comment is often heard that the medical manuscripts are dull and boresome in comparison to those of 50 years ago. Few physicians today write as [Sir William] Osler did. [William Henry] Welch’s lectures were erudite and Lewellys F. Barker was gifted with a flow of English such as few people have attained. Other examples could be cited. What has caused the difference?

(…)

In the meantime, we have on our hands a whole generation of physicians who entered medical school qualified in science but not in the humanities. (…) The more comprehensive a man’s education, the better physician he will be. He is thereby given more of the human touch.

(KOONTZ, 1959.)

E também:

Medicine is becoming more and more dehumanized as machines and apparatus take over the tasks of diagnosis and therapy. The laboratory, the x-ray, the computer, the various invasive techniques are increasingly important in what we fondly call scientific medicine. As machines encroach more and more on the practice of medicine, we tend to lose sight of the person. The doctor-patient relationship, always the object of lip service, gets obscured in the welter of diagnostic tests. Yet perhaps the very complexity of modern scientific medicine, in a sort of backlash, is serving to focus attention on personal involvement, not merely between doctor and patient, but between doctor and patient and society.

(KING, 1975.)

Isso causou uma insatisfação latente, que acabou por ser reconhecida e abordada com o movimento de humanização dos atendimentos nos serviços de Saúde. Este movimento, iniciado nos EUA, se difundiu bastante nas últimas décadas, como se pode conferir neste exemplo do Núcleo Técnico e Científico de Humanização da FMUSP:

O Núcleo Técnico e Científico de Humanização (NTH) é uma equipe formada por profissionais de diversas áreas do conhecimento (Medicina, Administração, Psicologia, Comunicação, Enfermagem), que faz parte da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas, instalado no sexto andar do Prédio da Administração do HC-FMUSP.

O NTH empreende políticas institucionais e ações para a humanização na assistência, no ensino, na gestão, na pesquisa e na cultura e extensão, em benefício de usuários, estudantes e profissionais da saúde.

Responsabilidades do NTH:

  • Elaborar diretivas técnicas de humanização para o Sistema FMUSPHC;
  • Desenvolver e coordenar a Rede Humaniza FMUSPHC;
  • Desenvolver a cultura da humanização no hospital e na faculdade;
  • Fazer diagnósticos de situação e propor iniciativas de humanização;
  • Desenvolver indicadores de humanização e monitorá-los;
  • Elaborar e divulgar relatórios com indicadores de humanização;
  • Coordenar a criação de grupos de trabalho de humanização quando necessário;
  • Elaborar material técnico e científico de humanização;
  • Desenvolver ações de ensino em humanização;
  • Desenvolver projetos corporativos de humanização;
  • Desenvolver pesquisas em humanização;
  • Colaborar para a divulgação da humanização;
  • Supervisionar a Ouvidoria Geral do HC;
  • Coordenar a Equipe SOS da Unidade de Emergência Referenciada do Instituto Central;
  • Coordenar as ações de humanização da Diretoria Executiva da FMUSP.

A lista de responsabilidades do NTH citada acima deixa claro que a humanização encontra-se plenamente integrada e compõe parte intrínseca da MBE. Mas como o post “Síndrome” de Burnout (26/08/2020) menciona, a “humanização” é necessária também internamente para que seja mais que obrigações adicionais na lista.

Nota:

Um(a) leitor(a) mais atento certamente percebeu que o post não definiu o significado do termo “humanização” — e isso foi proposital, na verdade não existe uma definição ou indicador unanimemente aceitos e pode se dizer que existem tantas maneiras de “humanizar” o atendimento quanto pacientes.

Bibliografia:

Civita, V. (ed.) Medicina e Saúde: História da Medicina Vol. I e II. Abril Cultural, 1970.
Faria, Lina; de Oliveira-Lima, José Antônio; Almeida-Filho, Naomar. Medicina baseada em evidências: breve aporte histórico sobre marcos conceituais e objetivos práticos do cuidado. Hist, Cienc, Saúde – Manguinhos. Jan-Mar 2021;28(1):59-78.
King, L.S. The Humanization of Medicine. JAMA. 1975;231(7):738-9.
Koontz, A.R. The Humanities in Medicine. JAMA. 1959;170(1):72-3.
Wilson, L. Medicine is Not Just a Science, it’s an Art: Why a Good Conversation with your Doctor is Good for Your Health. Choosing Wisely Canada. 01/11/2016. Acessado em abril de 2022.

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