Tōyōhari [東洋はり]

O começo do exercício da acupuntura por deficientes visuais no Japão remonta a Sugiyama Waichi [杉山和一] (1614–1694 EC), considerado por muitos o “Pai da Acupuntura Japonesa”. Ele chegou a tentar admissão numa escola de acupuntura em Edo (atual Tóquio), mas foi dispensado pouco tempo depois devido à deficiência visual.

Ele então retirou-se a uma caverna em Enoshima dedicada a Benzaiten (deusa da sabedoria, da música e das artes em geral) pedindo pela graça de alcançar a maestria na prática da Acupuntura. Depois de vários dias de jejum e preces, ao sair da caverna, ele tropeçou numa grande pedra e feriu-se no pé com uma farpa. Ao procurar por algo que o ajudasse a retirá-la ele conseguiu fazê-lo com o auxílio de um pequeno tubo de bambu.

E daí veio a revelação que levaria à invenção do tubo-guia (ou shinkan) e ao uso de agulhas mais finas, que se tornariam padrões da prática da Acupuntura Japonesa desde então. Ao tratar o shogun Tokugawa Tsunayoshi ele obteve suporte oficial e fundou várias escolas para ensino de Massagem e Acupuntura para deficientes visuais.

Posteriormente outros acupunturistas — como Fukushima Kōdō [福島弘道] (1910-1995 EC), ao fundar a Tōyōhari [東洋はり] em 1959, — reviveriam e manteriam essa tradição. Mesmo nos dias de hoje, deficientes visuais representam cerca de 40% do total de acupunturistas no Japão.

Segue uma citação de BIRCH e FELT, 2002 descrevendo uma demonstração prática da Tōyōhari [東洋はり]:

Stephen Birch teve a grande sorte de estudar com alguns acupunturistas cegos muito experientes no Japão. Ele, sua esposa Junko Ida e os colegas Marin Feldman e Joseph Kay tiveram a honra de um seminário intensivo particular com os professores seniores da Associação Toyohari (literalmente ‘Associação da Ásia Oriental de Terapia com Agulhas’). Kodo Fukushima, Toshio Yanagishita, Akihiro Takai e outros deram aulas por um ou dois dias cada um. Não foi somente uma experiência incrível de aprendizado, mas também uma experiência prática da maravilhosa sensibilidade tátil que os acupunturistas cegos desenvolveram.

Muitas pessoas supõem que o aprendizado dos acupunturistas cegos depende em grande parte ou exclusivamente da prática clínica em vez dos livros. A impressão é reforçada na primeira linha do prefácio ao livro de Kodo Fukushima, que previne os leitores: Se você estiver lendo esse livro, não está agulhando. Portanto, ficamos realmente surpresos ao visitarmos um acupunturista cego que havia compilado uma biblioteca particular de todos os clássicos importantes chineses e japoneses, inclusive os comentários mais importantes, todos em braille japonês. Na verdade, ficamos admirados em verificar que existem muito mais informações disponíveis em braille japonês que em inglês.

(…)

Particularmente, através da palpação das artérias radiais nos pulsos, podiam descrever em detalhes graus de mudanças que para nós eram completamente indistintos. (…) Por exemplo, enquanto Birch estava aprendendo a encontrar a localização e o agulhamento de um ponto utilizando uma técnica de não-inserção de agulhas, um professor cego palpava uma das artérias radiais enquanto colegas de Birch palpavam outras artérias. A cada movimento, à medida que seus dedos buscavam o ponto, o professor inferia a exatidão da localização daquele ponto baseado no que sentia na palpação. Simultaneamente, os alunos confirmavam a observação — cada um com um pulso diferente. O professor era capaz de avaliar se Birch estava muito abaixo, ou muito acima, ou próximo ou longe do ponto.

Quando o ponto era localizado, chamado de ponto vivo do movimento, Birch mantinha sua mão esquerda no ponto e introduzia a agulha vagarosamente na pele. Enquanto inseria a agulha, o professor relatava o estado do corpo de Birch. Por exemplo, o professor percebeu quando sentiu tensão nos joelhos. Sabia o peso dos seus dedos no ponto, como estava sua respiração e sua concentração. Sabia a profundidade relativa da agulha, em uma técnica onde ‘profundidade relativa’ se refere não à profundidade na carne, mas ao fluxo de qi que chegava à superfície do corpo.

A descrição não é tão fiel à experiência, mas o sistema de feedback detalhado é chamado de Kozato hoshiki, ‘método Kozato de estudo’, à moda de Katsuyuki Kozato, um dos fundadores do sistema Toyohari. O sistema possibilita que os professores avançados ensinem seus alunos (especialmente os alunos menos sensíveis, dotados de visão e, portanto, em situação desvantajosa) a prática dessa arte.

Em 1991 Fukushima Kōdō lançou o livro Meridian Therapy, como um manual de consulta para os cursos da Tōyōhari. Infelizmente (ao menos as edições em inglês) já não são muito fáceis de encontrar.

Bibliografia:

Birch, Stephen J; Felt, Robert L. Entendendo a Acupuntura. São Paulo: Roca, 2002.
Cunha, Antônio A. Acupuntura Japonesa: Estilo Sugiyama. São Paulo: Navegar Editora, 2008.
Toyohari – Toyohari Association of North America. Acessado em abril de 2020.
Toyohari Origins – Sayoshi. Acessado em abril de 2020.

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